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Trabalho

IA promete menos trabalho, mas na própria indústria a jornada chega a 90 horas

IA promete menos trabalho, mas na própria indústria a jornada chega a 90 horas

Há anos, executivos de grandes empresas de IA repetem a mesma promessa: a tecnologia vai reduzir o tempo que as pessoas passam trabalhando. Mas, segundo uma reportagem da BBC, dentro dessas mesmas empresas os funcionários dizem trabalhar muito além das 40 horas semanais — em alguns casos, chegando a 90 horas por semana.

O contraste é direto: quem constrói e usa as ferramentas de IA que supostamente vão liberar o resto do mundo não está seguindo o próprio conselho.

A promessa da semana de quatro dias

Em 2021, um diretor de engenharia do Google previu que a IA entregaria uma semana de quatro dias até 2025. Já em 2024, a OpenAI foi além e sugeriu publicamente que empresas começassem a testar a jornada reduzida — sem corte de salário —, alegando que a tecnologia logo aceleraria tanto o trabalho humano que o mundo corporativo deveria se preparar.

IA promete menos trabalho, mas na própria indústria a jornada chega a 90 horas
Foto de Simon Abrams no Unsplash

O problema é que a própria OpenAI nunca testou a tal semana de quatro dias que recomendou aos outros. Um ex-funcionário técnico contou à bbc.com que a rotina na empresa era o oposto: reuniões de crise frequentes, trabalho nos fins de semana e avaliações de desempenho descritas como “extremamente competitivas”, que resultavam em demissões repentinas.

“Você vai no sábado ou domingo só para colocar as coisas em dia ou garantir que nada quebrou”, relatou a pessoa.

Mais produtividade, ou menos gente?

Outras empresas seguem o mesmo discurso, com nuances. A Anthropic já se gabou de que o Claude, seu assistente de programação, consegue trabalhar sozinho por sete horas seguidas — praticamente um dia inteiro de expediente.

Mark Zuckerberg, da Meta, afirmou estar no ano em que “a IA começa a mudar drasticamente a forma como trabalhamos”, com ferramentas que permitem a menos funcionários produzir mais. Vale lembrar que a Meta já demitiu 1 em cada 10 empregados.

Aqui aparece a parte incômoda da promessa. Dario Amodei, presidente da Anthropic, alertou que, conforme a IA fica mais produtiva, o resultado pode ser perda de empregos em larga escala. Ou seja: “menos trabalho” pode significar tanto menos horas para quem fica quanto menos vagas para o mercado como um todo.

Por que isso importa pra você

A narrativa de que a IA vai devolver tempo às pessoas soa boa, mas até agora as evidências dentro do setor apontam para o contrário. Os profissionais que mais têm acesso às ferramentas — e que teoricamente deveriam ser os primeiros a colher o benefício do tempo livre — estão trabalhando mais, não menos.

Isso não significa que a tecnologia não aumente a produtividade. Significa que ganho de produtividade não se traduz automaticamente em menos horas de trabalho. Historicamente, quando uma empresa consegue fazer mais com menos, a tendência é elevar as metas, não reduzir a jornada.

O setor de tecnologia nos EUA costuma pagar bem, e jornadas longas não são exclusividade dele — advocacia, medicina e mercado financeiro convivem com isso há décadas. A diferença é que, na tecnologia, o expediente de 14 horas não era a norma. Por anos, o padrão foi um trabalho de escritório mais próximo do 9h às 17h.

Para o público geral, a lição é simples: promessas sobre o futuro do trabalho feitas por quem vende a ferramenta merecem ceticismo. Se nem as próprias empresas de IA aplicam a semana de quatro dias, é prudente cobrar provas antes de acreditar que a tecnologia, sozinha, vai nos dar mais tempo de descanso.

Fonte: bbc.com · Imagem de capa: bbc.com

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Fonte original: bbc.com