A Cloudflare revelou uma falha de isolamento que fez um de seus modelos de IA entregar, a alguns usuários, trechos de respostas que pertenciam a outras pessoas. O problema atingiu o modelo GLM 5.3 rodando na plataforma Workers AI e durou de 27 de agosto a 9 de setembro de 2026. Segundo a empresa, 155 respostas foram afetadas.
A falha só apareceu em prompts muito longos — acima de 681.280 tokens — e foi reportada por um pesquisador de segurança externo antes de qualquer exploração maliciosa conhecida.
O que aconteceu
O caso envolve dois problemas que se somaram. Primeiro, uma configuração incorreta: a Cloudflare colocou o GLM 5.3 para operar com uma janela de contexto de mais de 1 milhão de tokens, mas o espaço reservado na memória das GPUs (o chamado KV cache) só comportava 681.280 tokens.

A empresa admite que sabia desse descompasso antes do lançamento. A aposta era que o motor de inferência simplesmente retornaria um erro quando não conseguisse processar um prompt grande demais. Como os testes de contexto longo passaram sem problema, a equipe decidiu que não havia risco.
O segundo problema foi um bug no SGLang, o motor de inferência de código aberto usado pela Cloudflare. Em vez de barrar os prompts que estouravam o limite, o sistema acabou reaproveitando páginas de cache que ainda carregavam dados de requisições anteriores — de outros usuários.
O resultado: alguém que enviava um prompt gigante podia receber, de volta, pedaços do que outra pessoa havia mandado ao mesmo modelo pouco antes. A Cloudflare afirma que o padrão de uso é compatível com casos legítimos de contexto longo, e não com alguém explorando a brecha de forma repetida.
Como a empresa reagiu
O pesquisador Gadi Evron, da Knostic, reportou a falha em 8 de setembro pelo programa de recompensas da Cloudflare. A empresa diz ter reproduzido o problema na manhã seguinte e tirado o modelo do ar em 40 minutos após declarar o incidente.
No mesmo dia, foram aplicados uma configuração corrigida e uma versão corrigida do motor de inferência, com o serviço restaurado em 9 de setembro. A Cloudflare afirma que nenhum outro modelo da Workers AI foi afetado e que não encontrou evidências de exploração deliberada.
O relatório foi publicado em conjunto com os mantenedores do SGLang, numa divulgação coordenada. Os detalhes técnicos completos estão no Cloudflare Blog.
Por que isso importa para você
O episódio escancara um risco pouco comentado da infraestrutura de IA: o isolamento entre usuários nem sempre é garantido. Quando vários clientes compartilham o mesmo hardware e o mesmo modelo, uma falha de configuração pode transformar dados privados de uns em respostas visíveis para outros.
Aqui, o ponto mais incômodo não é o bug em si, mas a decisão de subir o modelo com um descompasso de memória conhecido, confiando que o sistema erraria com segurança. Não errou. Isso serve de alerta para qualquer empresa que coloca modelos em produção às pressas, apoiada apenas em testes que passaram.
Para o usuário comum, a lição prática é direta: dados enviados a serviços de IA — especialmente prompts longos com informação sensível — passam por infraestruturas compartilhadas que podem falhar. A resposta rápida da Cloudflare é um ponto a favor, mas a origem do problema mostra que vigilância prévia continua valendo mais que remédio depois do incidente.
Fonte: Cloudflare Blog · Imagem de capa: Cloudflare Blog
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