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Milhares de CEOs admitem: a IA ainda não mexeu na produtividade nem no emprego

Milhares de CEOs admitem: a IA ainda não mexeu na produtividade nem no emprego

Apesar do barulho em torno da inteligência artificial nas teleconferências de resultados e nos anúncios do Vale do Silício, a realidade dentro das empresas é bem menos glamourosa. Um novo estudo com cerca de 6 mil CEOs, CFOs e outros executivos nos EUA, Reino Unido, Alemanha e Austrália mostra que quase 90% das empresas não perceberam qualquer impacto da IA no emprego ou na produtividade nos últimos três anos.

O dado é tão desconfortável que fez economistas desenterrarem uma velha ideia dos anos 80: o paradoxo da produtividade de Robert Solow.

O paradoxo que voltou à moda

Em 1987, o Nobel de Economia Robert Solow cunhou uma frase que virou clássica: “dá para ver a era do computador em todo lugar, menos nas estatísticas de produtividade”. Naquela época, microprocessadores e chips de memória prometiam revolucionar os escritórios, mas o crescimento da produtividade nos EUA desabou de 2,9% ao ano (entre 1948 e 1973) para 1,1% depois disso.

Milhares de CEOs admitem: a IA ainda não mexeu na produtividade nem no emprego
Foto de Vitaly Gariev no Unsplash

Em vez de agilizar o trabalho, os computadores geravam relatórios intermináveis e pilhas de papel impresso. Só anos depois os ganhos apareceriam de fato. Segundo análise publicada pela Fortune, a IA generativa pode estar vivendo exatamente o mesmo limbo.

O que os números realmente mostram

O levantamento, publicado em fevereiro pelo National Bureau of Economic Research, traz um retrato curioso. Cerca de dois terços dos executivos dizem usar IA — mas, na prática, o uso soma apenas 1,5 hora por semana. Outros 25% admitem não usar a tecnologia no trabalho.

Isso bate de frente com o discurso oficial. Uma análise do Financial Times apontou que 374 empresas do S&P 500 citaram IA em chamadas com investidores entre setembro de 2024 e 2025, quase sempre em tom entusiasmado. Mas esse otimismo narrado aos acionistas não aparece nos indicadores de produtividade.

As expectativas futuras também são modestas: os executivos projetam que a IA aumentará a produtividade em 1,4% e a produção em 0,8% nos próximos três anos. Em relação ao emprego, as empresas preveem corte de 0,7% — mas os próprios funcionários, ouvidos em paralelo, esperam alta de 0,5% nas vagas. Ou seja: nem os chefes concordam com os chefes.

Por que isso importa para você

O descompasso entre o marketing da IA e o seu impacto real tem efeitos concretos. Investidores estão bombeando centenas de bilhões de dólares em data centers, chips e modelos, numa aposta de que a tecnologia em breve vai transformar a economia. Se esse salto demorar uma década, como aconteceu com os computadores pessoais, o risco de uma bolha — ou pelo menos de uma correção dura — cresce.

Para o trabalhador brasileiro, o recado é duplo. Por um lado, o pânico de que a IA vai varrer empregos em massa no curto prazo não se sustenta nos dados atuais. Por outro, a tecnologia continua mudando tarefas específicas de forma silenciosa, mesmo que os indicadores macro ainda não registrem.

Há também uma leitura mais crítica. Talvez as empresas estejam adotando IA mal: sem redesenhar processos, sem treinar pessoas e tratando a ferramenta como um enfeite em apresentações. Foi assim no começo da era dos PCs. O ganho só veio quando escritórios inteiros foram repensados em torno da nova tecnologia — e isso leva tempo, dinheiro e vontade política dentro das organizações.

Enquanto isso, vale desconfiar tanto de quem promete revolução imediata quanto de quem decreta que a IA é só hype. O paradoxo de Solow, 40 anos depois, continua ensinando o mesmo: tecnologia nova não vira produtividade sozinha.

Fonte: Fortune · Imagem de capa: Fortune

Fonte original: Fortune