O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou a criação de uma força-tarefa de inteligência artificial com um nome ambicioso: Super Intelligence Force. O grupo será chefiado por Jay Clayton, diretor de inteligência nacional, e vai coordenar como o governo federal lida com empresas, consumidores e até organizações religiosas no tema. O detalhe que mais chama atenção, porém, é o que o plano não prevê: nenhuma lei para regular o desenvolvimento da tecnologia.
O que foi anunciado
Além de Clayton, ex-presidente da SEC (a comissão de valores mobiliários dos EUA), a força-tarefa terá Andrew Ferguson, chefe da FTC (órgão de defesa do consumidor), e Emil Michael, subsecretário de defesa para pesquisa e engenharia. O grupo responde diretamente a Trump e à chefe de gabinete da Casa Branca, Susie Wiles.
Em publicação nas redes sociais, Trump disse que a força vai coordenar o contato do governo com “consumidores, grupos de interesse público, organizações religiosas, provedores de infraestrutura crítica e empresas de super inteligência”. Vale notar que o próprio presidente vem, unilateralmente, tentando rebatizar a IA como “super inteligência” — um termo que soa mais grandioso do que preciso.

Coordenar, mas não regular
Aqui está o ponto central. Trump rejeita abertamente a ideia de aprovar leis para controlar o avanço da IA, mesmo com o debate crescente sobre riscos da tecnologia. Na semana passada, ele e executivos das principais empresas do setor assinaram um documento “moralmente vinculante”, no qual as próprias companhias ficam responsáveis por garantir a segurança do que desenvolvem.
Ou seja: a autorregulação continua sendo a aposta. A crítica é imediata. A senadora democrata Elizabeth Warren afirmou que o Congresso “não pode enfrentar a ameaça urgente da IA apenas formando mais um comitê ou continuando discussões intermináveis”. Para ela, o caminho é aprovar regras concretas para proteger as pessoas.
Curiosamente, a pressão por mais regulação não vem só da oposição. Executivos de empresas como OpenAI e Anthropic também têm pedido regras mais firmes — o que torna a resistência do governo ainda mais notável, segundo a bbc.com.
Por que isso importa
O pano de fundo é a disputa com a China. Trump deixou claro que o objetivo é manter os EUA na frente: “Quem vencer a IA, vence”, disse. Dias após a visita de Estado do presidente chinês Xi Jinping a Washington, ele descartou qualquer parceria entre os dois países para desenvolver a tecnologia, alegando risco de vazamento de segredos.
Na prática, o modelo que se desenha é o de acelerar a corrida com pouco freio regulatório. Isso pode favorecer a velocidade de desenvolvimento, mas transfere a responsabilidade sobre segurança quase inteiramente para quem lucra com a tecnologia — as próprias empresas.
Para quem usa IA no dia a dia, aqui e lá fora, a mensagem é dupla. De um lado, há uma estrutura de governo organizada em torno do tema. De outro, ela nasce sem dentes legais: coordena conversas, mas não impõe limites. A promessa de um compromisso “moralmente vinculante” soa simpática, mas vale lembrar que moral não é lei, e empresa alguma costuma se fiscalizar com o mesmo rigor que fiscalizaria um concorrente. Resta ver se a Super Intelligence Force será uma estrutura de política pública real ou só mais um rótulo de marketing.
Fonte: bbc.com · Imagem de capa: bbc.com
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