A indústria de inteligência artificial precisa faturar US$ 6 trilhões por ano até 2031 apenas para justificar o dinheiro que está sendo despejado em data centers. A conclusão é de um novo relatório da consultoria Bain and Company, que coloca um número concreto na pergunta que muita gente evita: afinal, quem vai pagar por tudo isso?
O recado é direto. Ganhos de produtividade com funcionários usando IA, segundo a consultoria, não serão suficientes para sustentar os gastos projetados.
O tamanho da aposta
A Bain estima que o gasto anual com infraestrutura de IA pode chegar a US$ 1,5 trilhão até 2031. Isso inclui novas instalações, mais capacidade e atualizações constantes de GPUs, memória e equipamento de rede.

O problema é o ritmo. De acordo com o relatório, o tamanho e o custo dos data centers estão dobrando a cada 12 a 16 meses. Para que esse investimento faça sentido financeiro, ele teria que representar cerca de um quarto da receita da indústria — e é daí que sai a cifra dos US$ 6 trilhões anuais.
Para efeito de comparação, esse valor é maior do que o PIB da maioria dos países do mundo. É muito dinheiro para um setor que ainda está buscando como transformar hype em faturamento recorrente.
De onde esse dinheiro teria que vir
A Bain detalha como esses trilhões precisariam ser distribuídos. A maior fatia, entre US$ 4,2 trilhões, viria do desenvolvimento de novos produtos — áreas como busca, publicidade, veículos autônomos e a chamada “IA física” (robótica).
A produtividade em empresas apareceria em seguida, com algo entre US$ 1 trilhão e US$ 1,4 trilhão, vindo de software, vendas, marketing, atendimento ao cliente e TI. Já os serviços voltados ao consumidor — assinaturas e anúncios — contribuiriam com US$ 200 a 400 bilhões.
O ponto delicado é que boa parte dessa receita viria de produtos e usos que ainda não existem. A Bain cita descoberta de medicamentos, saúde mental e geração de energia como possíveis novos mercados. É uma aposta otimista: contar com inovações que sequer foram criadas para pagar uma infraestrutura que está sendo construída agora.
Por que isso importa pra você
David Crawford, presidente da prática global de tecnologia da Bain e autor do relatório, foi franco: “A economia da infraestrutura de IA exige trilhões em nova receita além dos ganhos de produtividade”. Segundo ele, o setor precisaria de uma onda de inovação que faça parecer pequeno o que o mobile e a nuvem geraram.
Traduzindo: as empresas vão precisar monetizar a IA de forma muito mais agressiva. Isso tende a significar mais assinaturas pagas, mais publicidade dentro de assistentes e chatbots, e pressão para empurrar produtos de IA para bilhões de usuários — mesmo quando nem sempre fica claro que eles resolvem um problema real.
Há também um risco embutido no próprio número. Se a receita de US$ 6 trilhões não aparecer no ritmo esperado, boa parte desse investimento em data centers pode se revelar excessivo. Vale lembrar que relatórios de consultorias costumam ser otimistas por natureza, e projeções para 2031 carregam enorme incerteza.
Por ora, o alerta serve como um contrapeso útil ao entusiasmo do mercado: construir capacidade é a parte fácil. Transformar isso em um negócio que se paga é que é o verdadeiro teste. O relatório completo foi divulgado pela consultoria e noticiado pelo The National.
Fonte: The National · Imagem de capa: The National
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