A OpenAI está em conversas iniciais para ceder 5% de seu capital ao governo dos Estados Unidos, segundo relato do Financial Times repercutido pelo the Guardian. A proposta, defendida por Sam Altman, prevê que outras empresas de IA façam o mesmo. As discussões ainda são conceituais e podem exigir aprovação do Congresso.
O que está sendo discutido
A ideia, atribuída a Altman, é que as maiores desenvolvedoras de IA americanas coloquem 5% de suas ações em um veículo de investimento nos moldes do Alaska Permanent Fund — o fundo soberano que aplica receitas do petróleo do estado e paga dividendos à população.
Até agora, só a OpenAI apareceu publicamente disposta a discutir o formato. Não há sinal de que Anthropic, Google e Meta topem entrar. Altman também esteve em conversas com Donald Trump e com os secretários Howard Lutnick (Comércio) e Scott Bessent (Tesouro).

Contexto: pressão política crescente
A proposta surge num momento em que o setor de IA nos EUA enfrenta pressão redobrada de Washington. No mês passado, a Anthropic suspendeu seu modelo mais recente depois de ordem do governo para restringir acesso a estrangeiros por razões de segurança nacional. O acesso só foi restabelecido esta semana.
Tanto OpenAI quanto Anthropic se preparam para abrir capital, com avaliações que investidores estimam ultrapassar US$ 1 trilhão para cada uma. Nesse cenário, oferecer uma fatia ao governo funciona como gesto político — e como seguro contra regulação mais dura.
Não é a primeira vez que a ideia aparece. Em abril, a OpenAI já havia defendido, em documento de política pública, a criação de um “fundo público de riqueza” que desse a “cada cidadão” uma participação no crescimento econômico gerado pela IA. A Anthropic também já flertou com a proposta.
Por que isso importa
No papel, a ideia soa generosa: dividir com a população os ganhos de uma tecnologia que promete concentrar riqueza como poucas outras. Na prática, há motivos para desconfiar.
Primeiro, 5% é uma fatia modesta diante da influência que essas empresas já exercem sobre a economia digital. Segundo, entregar ações ao governo aproxima ainda mais as big techs de IA do Estado — o que pode ser bom para blindar as empresas de regulação e ruim para a concorrência, já que reforça o clube fechado dos incumbentes.
Há também a questão da governança: quem administraria essa participação? Um fundo independente, o Tesouro, o Congresso? Cada resposta tem implicações diferentes para conflitos de interesse. Um governo que é sócio das empresas que ele deveria fiscalizar tende a fiscalizar menos.
Para o público brasileiro, o movimento importa por dois motivos. Primeiro, porque escancara o quanto a infraestrutura global de IA está sendo capturada por uma aliança entre big techs americanas e o governo dos EUA — com efeitos sobre soberania digital em países periféricos. Segundo, porque legitima um modelo em que empresas privadas negociam diretamente com o Estado a divisão de lucros, sem intermediação clara de instituições democráticas.
Por enquanto, é conversa preliminar. Mas o simples fato de estar sobre a mesa mostra que a relação entre governos e empresas de IA está entrando em uma fase nova — e menos fácil de fiscalizar.
Fonte: the Guardian · Imagem de capa: the Guardian
Quer aplicar IA no seu trabalho?
Aprenda qual ferramenta usar para cada tarefa — ChatGPT, Claude, Copilot, Gemini e NotebookLM — nos cursos do IA Todo Dia.
Conhecer os cursos →