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Sociedade

Papa Leão XIV publica encíclica sobre IA e mira ‘algoritmos opacos’ de poucas empresas

Papa Leão XIV publica encíclica sobre IA e mira ‘algoritmos opacos’ de poucas empresas

O Papa Leão XIV publicou nesta segunda-feira uma encíclica dedicada exclusivamente à inteligência artificial, chamada Magnifica Humanitas. No texto, ele pede regulação urgente da tecnologia e alerta que ‘algoritmos opacos’ controlados por um punhado de empresas privadas podem provocar ‘novas formas de desumanização’. A apresentação foi feita pelo próprio pontífice — algo raro — ao lado de Christopher Olah, cofundador da Anthropic.

A encíclica, dividida em cinco capítulos, parte de uma premissa clara: a tecnologia não é inimiga da humanidade nem é ‘intrinsecamente má’. Mas também ‘nunca é neutra’, porque carrega os interesses de quem a projeta, financia, regula e usa.

O contexto: a Igreja entrando no debate técnico

Encíclicas são documentos antigos do Vaticano, normalmente reservados a temas doutrinários ou sociais amplos. Dedicar uma inteira à IA mostra o peso que o tema ganhou para a Santa Sé — e segue uma linha já iniciada por Francisco, que abordou ética algorítmica em discursos no G7 e em mensagens anuais.

Papa Leão XIV publica encíclica sobre IA e mira 'algoritmos opacos' de poucas empresas
Foto de Ashwin Vaswani no Unsplash

A escolha de apresentar o texto ao lado do fundador da Anthropic não passou despercebida. A empresa vem cultivando, no último ano, uma aproximação explícita com comunidades religiosas, organizando encontros com líderes cristãos em sua sede para discutir aspectos espirituais e o desenvolvimento de seus sistemas. É uma estratégia de posicionamento que dá à empresa um verniz de interlocutora ‘responsável’ no debate público — algo que merece ceticismo, já que ela é parte do mesmo oligopólio criticado pelo Papa.

O documento também menciona o uso militar de IA, citando a recente guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã como exemplo de risco concreto. Em fevereiro, o CEO da Anthropic, Dario Amodei, entrou em rota de colisão com o governo Trump e com o Pentágono ao recusar liberar o uso irrestrito do Claude pelas Forças Armadas americanas.

O que muda com a encíclica

Na prática, o documento não cria regras nem obriga ninguém — encíclicas são orientações morais para fiéis e formuladores de política pública. Mas o peso simbólico é grande. O Papa pede ‘envolvimento político mais ativo’ para regular o setor e afirma que a revolução tecnológica não pode ser guiada pela ‘idolatria do lucro’.

Leão XIV abre o texto com uma metáfora dura: a humanidade estaria diante da escolha entre ‘construir uma nova Torre de Babel ou edificar a cidade em que Deus e a humanidade habitam juntos’. A referência bíblica à soberba humana é uma cutucada direta nas big techs que disputam quem chega primeiro a sistemas cada vez mais poderosos, frequentemente sem prestar contas.

Por que isso importa pra você

A encíclica não vai frear o ChatGPT, o Gemini ou o Claude. Mas adiciona uma voz com alcance global — são mais de 1,3 bilhão de católicos no mundo — ao coro que pede mais transparência sobre como esses sistemas funcionam, quem lucra com eles e quem fica de fora das decisões.

Para o usuário comum, o ponto central é o mesmo levantado por pesquisadores, reguladores europeus e até por funcionários das próprias empresas de IA: poucas companhias decidem hoje como modelos que afetam trabalho, informação e até guerra serão treinados e usados. Quando o Vaticano, normalmente cauteloso, decide gastar uma encíclica inteira nesse assunto, é sinal de que a concentração de poder no setor deixou de ser uma preocupação de nicho.

A íntegra da cobertura original está na Variety.

Fonte: Variety · Imagem de capa: Variety

Fonte original: Variety