Pesquisadores da Anthropic afirmam ter usado uma versão do Claude, chamada Mythos Preview, para descobrir novas formas de atacar algoritmos de criptografia — os métodos matemáticos que mantêm dados privados na internet. Foram dois resultados: um ataque que enfraquece o esquema de assinatura digital HAWK e uma nova maneira de atacar uma versão reduzida do AES, a cifra simétrica mais usada no mundo.
A empresa faz questão de deixar claro um ponto: nenhum sistema em produção é afetado no momento. Os achados são avanços de pesquisa, não brechas exploráveis no seu banco ou no seu e-mail hoje.
O contexto: da implementação ao próprio algoritmo
Quando a Anthropic lançou o Claude Mythos Preview, mostrou que ele conseguia encontrar e explorar vulnerabilidades em quase todo software testado — incluindo bibliotecas de criptografia. Só que, naquele caso, as falhas vinham de erros de implementação: programadores usando os algoritmos de forma incorreta no código.

Agora o cenário é diferente. Segundo a empresa, o Claude encontrou falhas matemáticas nos próprios algoritmos, e não apenas em como foram programados. É uma distinção importante: um erro de código se corrige reescrevendo o software; uma fraqueza no algoritmo mexe na fundação sobre a qual bilhões de sistemas foram construídos.
A criptografia é a base da segurança digital. Ao abrir um site com HTTPS, seu navegador confirma que fala com o servidor autêntico usando um esquema de assinatura digital. Depois, o tráfego é embaralhado por cifras simétricas. Sem isso, e-mail, banco online e navegação ficariam abertos a interceptação.
O que muda com HAWK e AES
O primeiro resultado é um ataque aprimorado contra o HAWK, um esquema de assinatura digital pensado para resistir a computadores quânticos. Em 2022, o NIST — instituto de padrões dos EUA — abriu uma chamada por sistemas que continuassem seguros mesmo diante de máquinas quânticas, que poderiam quebrar boa parte da criptografia atual. O HAWK é um dos candidatos que ainda estão em avaliação nessa disputa.
O segundo resultado aponta uma nova forma de atacar o AES com número reduzido de rodadas. Vale sublinhar o detalhe: o AES completo, usado na prática, não foi quebrado. Ataques a versões enfraquecidas do algoritmo são uma ferramenta padrão de pesquisa em criptografia para medir margens de segurança, mas não equivalem a derrubar a versão real.
Todos os detalhes estão no relatório publicado pela empresa em anthropic.com.
Por que isso importa pra você
A leitura otimista é que IA pode se tornar uma aliada na busca por fragilidades antes que atacantes as encontrem — uma espécie de auditoria automatizada e em escala. Se o HAWK tem uma fraqueza, é melhor descobrir agora, enquanto ainda é candidato, do que depois de virar padrão global.
A leitura preocupante é o outro lado da mesma moeda. Se a IA acelera a defesa, também pode acelerar o ataque. E aqui cabe ceticismo saudável: quem anuncia o resultado é a própria empresa que vende o modelo. Vale acompanhar se a comunidade acadêmica de criptografia valida esses achados de forma independente.
Para o usuário comum, nada muda no curto prazo. Seus dados seguem protegidos pelos mesmos padrões de sempre. O recado real é para quem projeta esses sistemas: modelos de IA já estão entrando na arena onde antes só circulavam pesquisadores humanos — e isso vai obrigar a repensar como testamos aquilo em que confiamos cegamente todos os dias.
Fonte: anthropic.com · Imagem de capa: anthropic.com
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